A QUEBRA DE CONTRATO NO JARDIM DO ÉDEN
O Criador estava sentado em Sua cadeira de
balanço cósmica, analisando o tráfego de almas do trimestre, quando a Morte
entrou no gabinete sem bater. Ela vestia aquela capa preta pesada de sempre —
puro melodrama para quem atua no calor do Oriente Médio bíblico — e arrastava
uma foice que, convenhamos, era um método bastante retrógado diante dos métodos
modernos de parada cardíaca.
— Temos uma crise de relações públicas, Chefe
— reclamou a Morte, com uma voz de folha seca sendo esmagada. — Eles estão me
pintando como um monstro de novo. Escrevem poemas trágicos, inventam pílulas de
colágeno para retardar os efeitos da velhice, fazem dieta contra obesidade
mórbida... Tudo para fugir de mim, mas no dia de finados vão aos cemitérios
visitar “vidas” ceifadas por mim ou “almas” que nem estão mais ali... Ninguém
aceita que sou só o botão de Reset que o Senhor me mandou instalar.
Deus suspirou. Ele Se lembrou do projeto
original do Éden. Era perfeito: pomares irrigados, nudismo sem complexos, zero
burocracia e um contrato de comodato, ou seja, de empréstimo de um corpo ao
espírito para a vida eterna...
— Eu avisei, não avisei? — resmungou o
Todo-Poderoso, limpando os óculos metafóricos. — "No dia em que dela
comerdes, certamente morrereis". Gênesis, capítulo dois, versículo
dezessete. Estava no manual do usuário! Mas eles precisavam de mais
antioxidantes na dieta: a maçã. Foram ouvir a serpente, que nem do departamento
de consultoria era...
A Morte escorou a foice na mesa de marcenaria
divina.
— Mas a culpa sobrou para mim! A teologia deles me trata como o pior dos
castigos.
O olhar do Criador mudou. O humor deu lugar ao
drama absoluto da existência.
— A humanidade, até hoje, não entende o
sentido paradoxal da morte — disse o Criador — A introdução da mortalidade no
mundo caído não foi apenas uma sentença jurídica; foi o Meu maior ato de
misericórdia. (Gênesis 3:22-24)
A Morte tombou a caveira para o lado, os
dentes estalando de leve.
—Misericórdia???
—Misericórdia, sim... — afirmou o Criador — uma
segunda chance para eles se redimirem!
— Misericórdia... Eles choram noites inteiras quando eu chego, Senhor. O Senhor
mesmo chorou no túmulo de Lázaro! ( João 35-36)
— Chorei porque a separação rasga o tecido
daquilo que criei para ser unido — respondeu o Deus da Bíblia, com uma
seriedade cortante. — Mas imagine se a humanidade fosse eterna em sua rebeldia.
Imagine um ditador egoísta vivendo por dez mil anos. Imagine o rancor de um
coração partido acumulando mágoa por milênios. A imortalidade no pecado
transformaria a Terra no verdadeiro inferno. Você, Morte, é o dique que impede
o sofrimento de se espalhar ao infinito.
A Morte consultou sua prancheta, pensativa.
— Entendo, Chefe. Mas e quando eu demoro a chegar? Às vezes o corpo deles
falha, o sofrimento se estende por anos em uma cama, e o Senhor me segura no
leste da cidade. Eles acham que eu sou cruel por demorar...
Deus olhou para as feridas invisíveis de Suas
próprias mãos, antecipando o calvário.
— A demora também tem suas razões nas entrelinhas
do Meu Livro. Há quem precise desse tempo de provação. O sofrimento na carne,
para alguns, funciona como o fogo do ourives citado por Malaquias 3:3. É a dor
que quebra o orgulho, que esmigalha o ego até que eles entendam que não são
deuses. Para muitos, esses dias longos e difíceis são a oportunidade de gastar
o orgulho em vida, de se arrependerem no pó, para que atravessem o seu portal
limpos e prontos para o Meu Reino. É um doloroso, mas pedagógico, processo de
purificação.
— O que significa isso??? – Perguntou a Morte?
— Há quem precise do fogo do ourives para
derreter o orgulho. Às vezes, seguro a sua foice porque a dor na carne é o
último recurso de limpeza da alma, garantindo que o homem atravesse o seu
portal despido de si mesmo, pronto para a Minha eternidade.
A cama de hospital pode ser o altar mais
sagrado da Terra. É ali, na aparente derrota do corpo, que muitos pagam suas
últimas dívidas com a própria vaidade e entram no Meu Reino sem nenhuma poeira
do mundo nos pés.
— E os outros? — perguntou a Morte — Aqueles
que sofrem, mas parecem lutar com uma força leonina, recusando-se a apagar a
vela?
— Esses estão cumprindo uma missão maior —
sorriu o Criador, com um brilho de orgulho nos olhos. — Estão vencendo você em
vida antes mesmo de eu dar a ordem. Estão demonstrando a força do Espírito
sobre a matéria. Pacientes que, mesmo desenganados, confortam os médicos;
idosos que, na fraqueza extrema, exalam uma sabedoria que converte famílias
inteiras. Eles transformam a dor em testemunho. É o que Meu servo Paulo quis
dizer em 2 Corintios 12:9 com "o meu poder se aperfeiçoa na
fraqueza". Nesses versos, você não é uma derrota; você é apenas a
moldura que destaca a vitória deles sobre a fragilidade humana.
— Como assim? – indagou a Morte.
— Muito simples... esses não estão apenas
adiando o fim; estão desarmando você enquanto respiram. Quando um corpo frágil
exala uma fé inabalável, eles provam que o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.
Eles vencem a morte em vida porque transformam o leito de dor em um púlpito de
vitória.
Agora, não confunda resistência com teimosia,
Morte! Aqueles que lutam com dignidade leonina cumprem uma última missão:
transfigurar a fragilidade humana em testemunho eterno. Eles já são imortais
antes mesmo de você tocá-los.
O silêncio teológico que se seguiu foi tão
profundo que se podia ouvir o mecanismo de rotação da Terra girando lá embaixo.
O drama da separação humana e o plano de resgate divino cruzavam-se naquele
instante. Para consertar aquele erro de sistema provocado pela fruta, o próprio
Filho do Criador teria que experimentar o gume daquela foice, provando da mesma
“fraqueza”.
Mas, sendo o autor da alegria, Deus quebrou a
tensão com um sorriso irônico...
— O mais divertido é ver os mortais gastando
bilhões de dólares em laboratórios no Vale do Silício, na Califórnia, para
tentar te hackear de vez, sendo que Eu já dei o spoiler do final do
livro.
— Ah, o capítulo vinte de Apocalipse? — a
Morte resmungou, sabendo exatamente onde aquela conversa ia dar.
— Exatamente. Versículo quatorze. No final de
tudo, quando o novo sistema operacional do Universo for instalado, Eu vou pegar
você e o Inferno e jogar os dois no Lago de Fogo. Nada pessoal, claro. Apenas
um corte de despesas e obsolescência programada na nova administração do Reino.
A Morte soltou um som que parecia estar
engasgada — o mais próximo que ela conseguia chegar de uma risada. Pegou a
prancheta de almas e ajeitou a capa.
— Bem, já que meus dias estão contados, é
melhor eu bater a minha meta de hoje. Tem um sujeito lá embaixo achando que vai
viver mais de cem anos porque só come ovo e toma banho gelado às cinco da manhã;
outro, aquele que já me venceu por três vezes e que agora está construindo essa
lavra ... Vou lá dar um susto neles.
— Vá e faça o seu trabalho, sem pressa, Morte
— sorriu o Criador, voltando para Suas planilhas de galáxias. — Mas
lembre-os, com a delicadeza de quem conhece o roteiro, que a vida deles só é
uma poesia bonita porque tem uma última linha — e que Eu Sou o Dono, também, do
ponto final!
